Jovens e crianças são imãs de palavras e atitudes

Sem dúvida este deveria ser o conhecimento número um que todo professor ou pai recebe. Fui muito agraciado de chegar à esta conclusão que afeta positivamente meu trabalho  e sem dúvida me ajudará na criação de meus futuros filhos. Digo isto, pois todos estão observando e absorvendo o ambiente ao seu redor e em especial os jovens, transformam estas informações externas em suas próprias realidades. Ao mesmo tempo, adultos se pegam de guarda baixa na maioria do tempo em suas vidas cotidianas, exibindo assim suas realidades distorcidas por influências externas passadas. Sejam através de atitudes e pequenas falas  que demonstram frustração, desmotivação e até uma posição negativa de frente a desafios e novidades, – todos nós estamos propensos a sair da personagem de influenciadores eventualmente, mas é preciso se policiar para que esta frequência seja a menor possível – especialmente em sala de aula e durante interações com jovens e crianças.

Sou professor de Inglês e T.I. voluntário. Neste projeto, interajo com jovens do ensino público e de comunidades carentes que não têm acesso aos temas ensinados por mim, portanto o ritmo de aulas é mais lento e exige mais energia para atrair as atenção e dedicação dos alunos. Pensando nisso, comecei então a unir dinâmicas de autoconhecimento, filosofia, motivação, criminalidade e mercado de trabalho dentro das atividades de T.I. e Inglês. Certo dia, ao ensinar PowerPoint e a importância da roupagem de uma boa ideia para que ela seja bem aceita, aproveitei o tema para entender melhor como cada aluno pensa e aborda sua existência em sociedade.

Pedi para que fizessem uma apresentação sobre suas famílias, suas histórias, como os membros se encontraram até chegar o ponto em que o aluno nasceu e então uma conclusão onde o aluno diz quem ele é na sociedade, o que ele gosta e não gosta de fazer, como é sua vida e quem ele deseja ser dentro de alguns anos. Tudo com o objetivo de aprender a criar apresentações em Powerpoint, pois afinal eu era apenas o professor de informática. O resultado foi interessante e um pouco assustador. A maioria dos alunos não sabia história de suas famílias ou a história de seu pai ou mãe, não conhecia os avós de algum ou ambos os lados paterno e materno e mais da metade não conhecia sequer o nome do pai. Outra coisa que descobri também é que muitos dos adolescentes não sabiam escrever ou sequer identificar a ordem de letras de uma sílaba falada.

Trabalhe com a informação recebida

Tudo bem, consegui coletar informações importantes que sem a atividade com informática, provavelmente não teria tão voluntária e amplamente coletada. Mas o que fazer com estes dados a partir de agora? Dentro desta mesma aula, os convenci que as características que os fazem se sentir mal, como não ter a presença de um membro da família ou não conhecer bem a família não quer dizer coisa alguma sobre quem eles podem ser no futuro. E sem dúvida as informações coletadas em cada slide de suas apresentações ajudarão outros professores e psicólogos a trabalhar mais intensamente em suas necessidades específicas para que eles se desenvolvam e mudem suas realidades.

Falta de consciência dos professores

Suponhamos que eu tenha feito a atividade da mesma forma, mas que não tivesse usado o tema que usei e partisse da premissa que todos deveriam estar motivados e saber a ler e escrever corretamente, pois sou professor de tecnologia e não alfabetização básica. Como estes alunos reagiriam com as críticas ou exigências de que um aluno de T.I. já deve saber ler e escrever corretamente e também deve estar ciente de onde está e motivado para ter um melhor futuro? É claro que estou exagerando e usando uma instituição de assistência social como exemplo, mas será que nossas escolas de ensino básico e até mesmo universidades não têm alunos com as características que mencionei acima? E pior ainda, será que todos os professores estão prontos para lidar com estas dificuldades humana e conscientemente, sabendo de que suas palavras e atitudes perante as dificuldades e falhas dos alunos têm um impacto tremendo em suas realidades e até mesmo em suas motivações de continuar tentando? Acho que sei sua resposta.

Adaptando atividades

Como você pode notar, não precisei parar minha aula, sair do laboratório e fazer uma dinâmica sentado na grama com os alunos. Eu segui minha ementa, eu ensinei Powerpoint aos alunos. A única diferença é que pensei além das necessidades do mercado de trabalho na hora de preparar minha aula. Pensei em como estes alunos podem ser pessoas melhores enquanto aprendem habilidades profissionais requiridas pela indústria. Acredito que esta combinação de temas é a forma mais fácil de alcançar êxito no ensino de qualquer matéria, pois assim o aluno trabalha conceitos internos que estão ligados diretamente com os fatores que fizeram com que ele seja que é e esteja onde está, além da motivação para ser melhor e estar em um lugar melhor.

Muitos podem acreditar que isto é uma tarefa extra e exaustiva, mas garanto através de experiência prática que quanto mais humana e didática sua aula, menos trabalho e mais sucesso você terá em transferir o conhecimento proposto pela instituição e influenciar positivamente seus alunos para que não somente sejam bons profissionais, pois isto qualquer um pode ser, mas para que sejam melhores seres humanos.

Alan Dantas